Histórias que ninguém acredita


O mundo, as pessoas, o reencontro e o passado obscuro

Estava, na semana passada, ministrando oficinas de cinema para a Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo, junto com os meus colegas de O Gritador. As aulas eram nos vagões do Museu do Trem, durante as tardes. Entre os alunos, uma mulher bonita, morena, comunicativa e participativa.

E que não lembrava que já me conhecia de outros carnavais.

Quer dizer, "carnavais" não. Festas punk, isso sim. Não, eu nunca foi punk. E nem a moça em questão. O que só deixa tudo mais absurdo, para variar...

Na sexta-feira, último dia da oficina, perguntei:

- Escuta, tu morou em Portão, né?

- Eu sou de Portão (esse "eu sou" foi dito com extremo orgulho). Por quê?

- Porque eu conheço o Jackson Ritter.

E ela fez aquela expressão de "meu Deus...":

- Pois é, eu vi ele na exibição do filme na segunda-feira, e fiquei me perguntando o que ele estava fazendo lá.

- Ele é produtor do Gritador.

- Pois é...

- Mas eu te conheço também.

E ela, animada:

- É?

- Sim. Lembra do bar que o Jackson tinha?

A empolgação foi trocada por uma expressão gélida, seguida por uma gargalhada:

- O Mastur?

A título de curiosidade: em 1997, o Jackson abriu um bar em Portão, num de seus arroubos de ficar rico rapidamente. O negócio não durou quatro meses - entre outros motivos, por causa do nome: Mastur. Sim, Mastur Bar. E eu continuei:

- Isso, o Mastur. Lembro que tu tinha uma banda, que tu cantava e que vocês foram lá tocar num festival punk...

- A Fel?

- Isso! Fel! Não lembrava o nome da tua banda. Mas no fim vocês não tocaram, né?

- Não. Nosso baterista caiu antes de subir no palco e machucou a mão. A gente não tocou.

- É, eu lembro que era algo do gênero...

Depois, ela contou que a banda acabou e que o projeto de vida seguinte foi criar uma comunidade anarquista numa casa abandonada no centro de São Leopoldo (e eu que pensava que a minha vida era uma loucura...), que casou, separou e virou mãe. A moça, claro fez a gentileza de não mencionar que não conseguia lembrar de mim na época, nove anos atrás. E, só pra constar, a tal festa punk no Mastur ocupa a 8a posição no meu top ten de indiadas.

Não adianta: o passado sempre volta à tona. E eu estou falando de mim: freqüentar e ter sido avalista de um estabelecimento nomeado com um verbo de caráter sexual sem ser puteiro é pra lá de obscuro...



Escrito por Ulisses Costa às 15h34
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