O Gritador em Ausentes - PARTE II
Dia 0
Assim, espírito de aventura preparado e espírito cômico mais ainda, chegou a hora de irmos. O Lada do Roberto tinha recém voltado da mecânica, supostamente com tudo em cima.
Supostamente.
Era por volta das cinco horas da tarde de domingo, dia 6 de novembro de 2005, quando o Lada chegou na casa do Iky, onde eu e ele acertávamos os últimos detalhes para a gravação. Os demais integrantes (Chico e Kiko) já estavam embarcados, junto com uma penca de bagagens. Passamos ainda rapidamente na minha casa para carregarmos uma meia dúzia de elementos de cena e o figurino dos atores. Em seguida, pé na estrada.
Talvez o trecho mais tranqüilo de toda a semana seria exatamente o que separava São Leopoldo de São Francisco de Paula. Nosso maior divertimento foi brincar com um Guia Rodoviário Quatro Rodas, encontrando nomes engraçados de cidades (os melhores foram Pau Preto, Curralinho dos Paula e o impagável Pau Cheiroso) e tentando adivinhar a população de cada uma delas. Os ganhadores de cada rodada tinham direito simbólico sobre as bolachas recheadas sabor quindim que o Chico tinha levado. Era quase uma viagem lúdica – uma família indo para a praia cantando “e a árvore da montanha, olê-ia-ô” não pareceria tão feliz.
Era quase noite quando chegamos em São Chico, com um tempo horrível: apesar de ser novembro, o clima era frio e o chuvisco intermitente irritava. O Iky conseguiu a chave da casa a tia dele – um lugar lindo, que foi construído depois que a casa antiga foi destruída por um tornado poucos anos atrás.
O estilo “família de férias” continuava: tudo era motivo de piada, do sapo que o Roberto atropelou quando colocava o Lada para dentro do pátio ao nome da lancheria onde faríamos nossa janta, o Xis do Japa. Acendemos um fogo na lareira, onde pusemos nossos tênis para secar, e rimos horrores ao descobrir que o Roberto e o Chico haviam levando pijamas azuis praticamente idênticos – o que motivou uma série de fotos dos dois como casal gay (nada pornográfico, que fique bem claro).
Apesar de precisarmos acordar cedo no dia seguinte (mais precisamente, às 4 da madrugada), não conseguimos deitar antes da meia-noite. O Iky ficou com a cama de casal; Chico e Kiko dividiram o quarto com duas camas de solteiro e eu e o Roberto pusemos dois colchões no chão. Seria a primeira de várias noite de poucas horas de sono que viriam pela frente.
Frase emblemática: “Ulisses, procura Pau Grande no Guia” – Iky, ainda na estrada.
Outra frase emblemática: “Eu matei um sapo?” – Roberto, sorrindo incrédulo, ao saber que esmagara um pobre anuro na entrada da casa.
Momento emblemático: Roberto parado no meio da sala, escova de dentes enfiada na boca, olhando para nós sem entender que ríamos das manchas de carvão na manga do pijama azul que ele estava usando, ao mesmo tempo em que emitia dramáticos “hums?” de incompreensão.
Escrito por Ulisses Costa às 17h03
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