O Gritador em Ausentes - PARTE I
Prólogo
Minhas coisas estavam arrumadas na minha velha e guerreira bolsa de viagem. Velha mesmo, quase mais do que eu: ela já deu as caras em várias da indiadas que eu participei, inclusive algumas da infância com a minha mãe. Mais uma vez, ela estava pronta. Claro que, com a idade, o volume de coisas cresce: camisetas a mais, kit de lentes de contato, textos da faculdade para ler quando der tempo. Quando eu fui passar 16 dias na Flórida, então com 13 anos (ih, faz tempo!), ela não estava tão cheia do que neste domingo, dia 6 de novembro de 2005.
Passei o dia descansando, dando conta de poucos últimos detalhes (a maioria deles definida no sábado, na última reunião da equipe). Até mesmo o "nome" da nossa expedição estava acertado. Foi num diálogo nesta mesma reunião, na casa do André e da Chai. Verificávamos a logística de quem ia em que carro. A Chai informou:
1 - Na Parati alugada por ela e pelo André, iam os dois, os atores Juremir Neto e Lindon Satoro Shimizo e recém-arregimentada continuísta Tina. Todos jovens, bonitos e sadios - ninguém acima dos 24 anos. Era o carro dos bons-moços.
2 - No Tempra-velho-de-guerra do Jackson, iam ele, a Fernada (produtora de elenco, agora defenestrada da equipe), a equipe de som formada pelo legendário Nego Bando e seu filho Tiago, além do ator Leandro Lefa. Todos com humores absloutamente atípicos - e quem acompanha o blog a mais tempo, ou mesmo conhece o Jackson, sabe do que eu estou falando. Era, por conseguinte, o carro dos bagaceiros.
3 - E no impressionate Lada Niva do Roberto, além do próprio, íamos eu e o Iky (diretores), o Chico (making of) e o Kiko, irmão do André (também recém-colocado no posto de assistente de direção). E, ainda no sábado, perguntou o Chico:
- Tá, se os outros são os bagaceiros e os bons moços, nós somos quem?
E eu batizei:
- Somos os sem-esperança.
Nunca dei um nome tão bem escolhido para alguma coisa. É nessas horas que eu penso: "sim, sou bom... em alguma coisa, pelo menos".
Os "sem-esperança" (ou ainda "Os 100 Esperansa") eram assim porque iam antes. Partiriam ainda no domingo. Pernoitariam em São Francisco de Paula e sairiam de madrugada, em plena segunda-feira, para chegar em São José dos Ausentes pelas 9 horas da manhã buscar as locações que faltavam. O restante da caravana sairia de São Leopoldo e Porto Alegre na segunda mesmo, tentando chegar por volta das 13 horas ao destino.
Claro que não foi assim. Não podia ser tão simples. Deve ter sido alguma maldição quando eu estava no útero, mas as coisas sempre tem que complicar.
continua...
Escrito por Ulisses Costa às 17h47
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