Ode à absurdidade humana - parte II
Sim! A palavra absurdidade existe na língua portuguesa.
Essa coisa de ser ator é que nem quando eu me tornei repórter policial: nunca pensei em ser repórter, que dirá da página policial de Montenegro. Pois bem, além de nunca pensar em atuar, nem nas minhas fantasias mais desvairantes concebi fazer parte de um musical. Isso apenas ressaltou que a minha carreira, recém-iniciada, já estava decadente: primeiro, fiz um fantasma que não tem falas, só grita e aparece com uma ridícula cara de mau. Em seguida, fui escalado para figuração num musical. Uma estrela cai (sem sequer ter subido).
É óbvio que eu jamais aceitaria fazer isso sozinho, por isso contei com a ajuda do Chico Pereira. Nosso papel seria absolutamente simples: carregar uma mesa para cima do palco, trajados como garçons. O figurino era por nossa conta e risco (incluindo as toneladas de gel no cabelo) mas nos foi garantido o recebimento de um cachê simbólico. Obviamente que nem ensaiaríamos uns passinhos de dança, era só entrar e colocar a dita mesa. Muito bem. A Bibi nos pegaria no final da tarde de sábado.
Ocorre que era muito pior do que a gente imaginava: não era uma simples montagem de Hair: era o recital de 30 anos do Ballet Sinos, escola de dança de São Leopoldo, composto por três momentos: o ballet clássico duma peça chamada Dom Quixote, a apresentação das crianças, chamada Extra! Extra! e o leading act com Hair. O público era dumas 400 ou 500 pessoas. A estas horas, o Chico já havia sido escalado para um papel com falas no início da apresentação juvenil como um jornaleiro que atravessa o público gritando manchetes de 30 anos atrás. Mas o pior foi quando eu percebi que eu e ele seríamos os únicos seres humanos do recital a subir no palco que jamais haviam dançado na vida, o que tornou a situação ainda mais esdrúxula.
Claro que, como sempre, podia piorar. E não deu outra: ao chegarmos atrás do palco, vestidos como pingüins sem asas e prontos para nossa participação, nos mostraram a "mesinha" que tínhamos de levar para cima do palco.
Era um troço de três metros de comprimento, de madeira maciça. Apenas para complicar, sobre ela estava uma imensa toalha branca que pendia pronta para se enrolar nos nossos pés. E, como a cereja do bolo, a mesa estava repleta de taças, sobre as quais repousava uma recomendação:
- Guris, levem a mesa mas não deixem cair as taças.
Pois bem, senhorita. No momento certo, eu e o Chico entramos no palco (sem olhar um para o outro, senão a desgaraça estava feita) e repousamos a mesa perfeitamente no centro do palco, num trabalho simétrico. Após a dança, retiramos a mesa com o mesmo ar de nada-está-acontecendo. A moça que nos orientou (cujo figurino parecia uma embalagem de Sonho de Valsa) nos agradeceu e eu disse para ela, em voz de falso choro:
- A mesa ficou tão bonita ali, no meio do palco...
Feito isso, fugimos coxia afora e voltamos para a platéia, onde fomos reconhecidos e cumprimentados pelo nosso trabalho. Esperamos o fim da apresentação e a Bibi nos levou para casa, não sem antes parar num postinho para obter nossos cachês: uma Polar long neck para mim, uma Soda Limonada 600 ml para o Chico, dois pacotinhos de Twix para os dois.
Receber o cachê em trago... Realmente, minha carreira está decaindo. Melhor me aposentar.
Escrito por Ulisses Costa às 09h46
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