Se a minha viagem a São José dos Ausentes fosse um teatro, as peças encenadas seriam:
Monólogos debaixo do chassis - Ato I
Abrem-se as cortinas. Jackson Ritter é o nosso herói. No palco, um Fiat Tempra está com a traseira erguida por um macaco e uma pilha de pedras. Sobre o palco, uma cobertura de britas. Jackson está sob o carro, quase escondido da platéia, barriga para cima, arrumando a barra da balança da roda, que quebrou. Uma luz difusa de anoitecer, um pano de fundo mostrando uma fazenda-pousada nas proximidades do cânion do Monte Negro. Três estátuas de diferentes estaturas e compleições físicas (as quais vamos chamar de André, Iky e Ulisses) estão à volta, como interlocutoras silenciosas do protagonista, que diz, em tom que mistura o contemplativo e o constatador:
- Isso é porca. Isso é parafuso. E isso... ah, isso é pedra.
Monólogos debaixo do chassis - Ato II
Permanece o cenário e as estátuas, colocadas em outras posições. Só a iluminação do palco muda e fica mais escura. Jackson diz em tom indignado:
- Só não me digam. Só não me digam que eu vou ter que desmontar o tanque de combustível para arrumar esta merda.
Monólogos debaixo do chassis - Ato III
Ainda o mesmo cenário, com as estátuas em posições diferentes. A luz denuncia que já é quase noite. O protagonista observa uma peça e fala em tom analítico:
- Isso aqui tem cara de que não devia ser desmontado. Mas vai ser.
Diálogos dentro do Tempra - Ato Único
- Jackson, como é que tá a temperatura do motor?
- Estável no vermelho.
Escrito por Ulisses Costa às 18h26
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