Histórias que ninguém acredita


O que é uma indidada? - Da sua conceitualização e idiossincrasias

O que é uma indiada? Como ela se define? Seria ela a mesma coisa que a sua expressão fundadora, "programa de índio"? Se assim fosse, o que eu chamo de indiada nada mais seria que o que esta gíria já ultrapassada pretende definir, não é? Mas indiada e "programa de índio" não são coisas iguais.

O "programa de índio", na verdade, constitui-se de uma programação que resulta no mais profundo e aterrador tédio. Exemplo do gênero: uma mulher resolve atender ao pedido de sua amiga que não consegue viver solteira, aceitando acompanhá-la no primeiro encontro que a segunda conseguiu marcar com um ananás-de-bota qualquer que ela conheceu na Internet. O motivo é que a amiga-que-não-pode-viver-sem-companhia-masculina tem medo que o seu "date" possa ser um tarado, um idiota ou ser estupidamente feio. Eis que, para surpresa da pobre acompanhante, o moço é tudo isso e ainda tem bafo, unhas sujas e torce para o Grêmio. E, mais surpreendente ainda, a infeliz amiga adora-o e, após 55 minutos de conversa esplendidamente inútil, agarram-se em profusão no café da moda, onde toca o tipo de música mais execrável possível (que a nossa protagonista, claro, odeia). Mesmo com os dois pingüins (que, assim como os pombos, ficam juntos para sempre) estejam se dando muito bem e trocando abundantes quantidades de saliva, a nossa heroína acaba prometendo para a maldita amiga ficar por perto para que o Gonzo (aquele, dos Muppets) que ela descobriu não tente passar o sinal até o fim da noite - ponto que situa-se a longos 240 minutos daquele exato momento. E, depois de passar estes acachapentes dois pares de horas jogando serpente em seu celular, sem se interessar por nenhum dos 27 panacas que lhe tentam abordagens totalmente irritantes de tão "originais" e provando o quão bom pode ser tomar cinco doses de absinto intercaladas com duas porções de fritas, a nobre jovem precisa pegar um táxi, já que a amiga pediu o carro emprestado para poder ir com o rapaz para o primeiro motel barato na Scharlau (o encontro passa-se em São Leopoldo, minha cidade, por supuesto). Claro que ela promete devolver o Corsinha na manhã seguinte, mas neste momento a nossa protagonista quer mesmo voltar para casa, comer meia barra de Galak com pedaços de Negresco, tomar um banho e, dentro da medida do possível, não dormir no corredor e poder se refestelar no melhor lugar do mundo, a cama.

Uma indiada não é assim. O que define a indiada é a fabulosa quantidade de stress, conjugada a um espírito cômico absolutamente idiota. Numa indiada, não há momento de tédio. Não há piada repetida. As coisas não raro acontecem em turbilhões que podem durar horas ou mesmo dias. Sempre há algo de novo ocorrendo em uma indiada. E se ela é por demais estendida, pode rer certeza: alguma coisa de muito, mas muito imprevisível e nonsense vai ocorrer. Quer um exemplo de indiada? "O Senhor dos Anéis", uma das Mães de Todas as Indiadas (o Pai é a "Odisséia"). Algum não literário? Pois bem, qualquer uma das grandes navegações. Ou qualquer excursão bandeirante. A Coluna Prestes. Estas coisas são indiadas. Delas que eu tratarei aqui.

A única semelhança entre os dois conceitos é o desfecho: a cama, na indiada e no "programa de índio", é sempre o melhor lugar do mundo...



Escrito por Ulisses Costa às 20h17
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